Quem é o marfinense de 1,93m que encantou a base do Palmeiras e tem multa superior a meio bilhão
Koné Zié é zagueiro, tem 18 anos e foi aprovado em teste depois de aceitar convite do Verdão para deixar a Costa do Marfim; ele sonha em "dar uma casa e uma vida melhor" para mãe
Koné Zié estava no saguão do aeroporto, a 300km de casa, quando se despediu da mãe para cruzar o oceano pela primeira vez. Cresceu confidenciando a ela os sonhos, a rotina, as inseguranças, e não à toa foi a única para quem contou o motivo da viagem: um convite do Palmeiras para viver três meses de teste na base do clube, em São Paulo. Estava chocado.
– Minha mãe me disse para ficar concentrado, trabalhar muito para tirar a gente dessa vida. Ela está sempre sonhando em sair de lá – conta o garoto, recriando a conversa de dois anos atrás.
Ouattara Djaliya ensinou ao filho a firmeza que a vida a obrigou a ter. De quem viu o marido morrer cedo, quando Koné era recém-nascido, e precisou assumir o sustento de casa para criar o menino e suas duas irmãs.
Então ali, aos 16 anos, como centenas de outros garotos que saem sozinhos para mudar a vida com o futebol, Koné deixou a Costa do Marfim, carregando nas costas a mochila, os conselhos da mãe e a responsabilidade de construir uma nova história.
– Quero dar uma casa, uma vida melhor para ela.
— conta o zagueiro.
Koné foi aprovado. Mas por exigências legislativas da Fifa, só pôde mudar ao Brasil em definitivo dois anos depois. Assinou em novembro de 2025, quando fez 18 anos, seu primeiro contrato, com uma multa de 100 milhões de euros (cerca de R$ 608 milhões) e inaugurando uma expansão da captação do Palmeiras na base: a prospecção de talentos em torneios do continente africano.
Com o dinheiro pago pela transferência, o JEK, clube marfinense onde estava, comprou um novo ônibus a ser utilizado nas viagens da equipe. Foram 750 mil euros pelos direitos do zagueiro.
Muito antes de chegar ao Palmeiras, contudo, Koné cresceu em Bouakê, segunda maior cidade da Costa do Marfim, como o mais novo de três filhos. Do pai, Koné Adama, guardou fotos, o nome, uma camisa e a lembrança, construída pelos relatos da mãe, da maior dificuldade que viu a família passar.
As coisas eram muito difíceis para ter comida em casa. Meu tio, que é irmão dela, que ajudava, e até agora ajuda, porque no início minha mãe não trabalhava.
revela o zagueiro de 1,93m de altura, em sua primeira entrevista.
Mas quando se viu responsável por todas as funções familiares, Ouattara buscou um caminho: cozinhar e vender alimentos nas ruas perto de casa. E enquanto a mãe saía carregando porções de bouille e galette, típicos da Costa do Marfim, Koné encontrou no esporte uma saída.
Aos oito anos, ganhou a primeira chance em um time amador da cidade. Aos 14, saiu de casa. E os treinos com o JEK, na capital Abidjã, deixaram-no em um alojamento a 347km de distância, porém mais próximo de conquistar o próprio sonho.
Porque é vestindo a camisa do clube que em 2023 ele segue viagem por 11 horas de ônibus para participar de um torneio em Accra, capital de Gana, diante de dezenas de olheiros que os observariam jogar. Entre eles, Sérgio Passarinho, do Palmeiras.
– Sabe quando você gruda o olho em alguém? É como se fosse Big Brother, meu olho não sai mais, não consigo tirar – conta Sérgio.
– Quando a bola sai dele, eu começo a ver a reação sem a bola, porque isso que importa na captação. E ele o tempo todo estava lendo o jogo, arrumando o time atrás, com passe curto, longo, é canhoto, rápido. Eu pensei: bom, isso é a cara do Brasil.
Meses depois, Koné chegava a São Paulo para o teste na Academia de Futebol 2, da base.
– Ele treinou duas vezes e todo mundo ficou encantado – conta João Paulo Sampaio, coordenador do departamento e que até hoje manda vídeos e sugestões de jogo ao zagueiro por mensagem.
– Ele é muito ligado no jogo, sempre percebe antes a jogada. É canhoto, com capacidade de criação e defensiva destacada. Isso torna ele um zagueiro completo – explica Lucas Andrade, técnico do sub-20 do Palmeiras e hoje a caminho da seleção brasileira de base.
A aprovação era só o início da caminhada. Aos 16, não podia se transferir em definitivo, então vinha por estadias temporárias, jogando competições não oficiais. Aproveitou o tempo, em meio a ansiedade, para aprender: não só a tática, como também o idioma, com aulas de português três vezes na semana.
– Eu não falava nada, no primeiro treino não estava entendendo, usava tradutor e era difícil de conversar com os caras. Depois de alguns meses, já estava entendendo tudo – conta Koné, hoje praticamente fluente.
Habituou-se aos companheiros de base, fez treinos no profissional, recepcionado por Vitor Roque, até quebrar a timidez no vestiário, e agora joga como titular na equipe sub-20. Fez três jogos no Brasileiro da categoria e está prestes a estrear na Libertadores, no Equador, neste domingo.
Muito mudou em dois anos. Sem nunca perder, contudo, o contato direto com a mãe. Agora ainda mais distante, as confidências se transformaram em videochamadas, com uma ou duas horas de duração, todos os dias, quando ela se libera do trabalho, ele reforça.
Sem tempo e com medo, porque não gosta de vê-lo cair no gramado, Ouattara nunca foi ao campo com Koné, mas sempre conversam ao fim dos jogos. E agora, entre cozinhar e vender, tira o pouco tempo que sobra para assistir online o filho mais novo se realizar.