Vitória alardeada por Trump sobre o Irã soa a concessão
Presidente americano esbarra em dois trunfos mantidos pelo regime: o Estreito de Ormuz e o arsenal nuclear.
Da retórica vulgar à apocalíptica, o presidente Donald Trump finalmente anunciou um cessar-fogo de duas semanas com o Irã, que o deixou mais distante dos objetivos propagados há 40 dias para entrar em guerra contra o regime dos aiatolás.
A vitória alardeada pelo presidente americano, após a dramática ameaça de extinção da civilização persa, ressoa a recuo e concessão, e esbarra em dois trunfos mantidos pelo Irã: o Estreito de Ormuz e o arsenal nuclear.
Se os críticos ressaltaram o ultimato como mais um momento TACO do presidente - “Trump sempre amarela” -, o suposto recuo foi saudado como um suspiro coletivo de alívio em um dia traumático com hora marcada e contagem regressiva para a catástrofe mundial.
Trump conseguiu fazer o planeta girar em torno de seu eixo, mas a manobra terá um preço alto: o de recuperar a credibilidade dos EUA e a sua própria. Seus ultimatos e prenúncios do apocalipse passarão a ter valor reduzido no mercado da barganha.
O plano de dez pontos a serem discutidos com o Irã implica o levantamento das sanções, o controle do regime sobre o Estreito de Ormuz, a liberação dos ativos congelados e a retirada militar dos EUA do Oriente Médio, antes rejeitados pelo governo Trump.
Na versão em farsi, o Irã incluiu a frase “aceitação do enriquecimento do urânio” para seu programa nuclear, que sempre representou uma linha vermelha para os EUA e Israel.
Objetivamente, as metas traçadas pelo governo americano para justificar a ofensiva militar não parecem ter sido alcançadas. Embora combalido com a morte de figuras proeminentes, o regime foi preservado sob uma liderança ainda mais intransigente, diferentemente do que Trump faz crer, de que negocia com atores “mais razoáveis”.
A guerra também deu oportunidade ao Irã de reforçar o seu controle sobre o Estreito de Ormuz e desestabilizar a economia global.
O regime se mantém desafiador: vangloriou-se da perspectiva de cobrar pedágio de embarcações que navegam pela via e estabelecer uma nova ordem para o corredor marítimo, fundamental para o petróleo e o gás.
O desastre pode ter sido evitado e o conflito no Oriente Médio entrou no modo pausa pelas próximas duas semanas, mas a reputação dos EUA foi profundamente abalada pelos desvarios de Trump, que precisará empreender esforço hercúleo em sua estratégia de convencimento sobre a vitória.